Manifestação dos indignados (Parte 1)

Saí de casa após o almoço, tardio, não se tratasse de um Sábado, dia de descanso (quando possível) no qual os horários da semana de trabalho tendem a ser contornados e as rotinas alteradas. Tinha um compromisso em Angra do Heroísmo, concretamente no museu desta cidade, às 16:00 horas.
15 de Outubro de 2011, o mesmo Sábado, data marcada para os indignados de dezenas de países se manifestarem em centenas de cidades, incluindo Angra do Heroísmo. Eu, como indignado que estou, fiz questão de marcar presença na referida manifestação, que decorreu na cidade património mundial. Quando cheguei à Praça Velha, coração da cidade e onde decorria a manifestação, não estavam lá mais do que uma dúzia de pessoas concentradas. Faltavam poucos minutos para as 15:00 horas. Uma equipa de televisão recolhia um ou outro depoimento. Como sou um tipo um pouco tímido e algo reservado mantive uma certa distância, sendo que quando percebi que a reportagem estaria a terminar, aproximei-me e sentei-me num banco que não distava mais do que um metro e meio do grupo de indignados. Acendi um cigarro e por ali estive a observar as pessoas que conversavam, divididas por dois ou três grupos. Algumas tinham os típicos cartazes de protesto ao peito ou seguravam-nos com as mãos. Observei também as pessoas que se aproximavam, curiosas por saber o que estaria a passar-se, e que depois de perceberem do que se tratava seguiam o seu caminho ou, subtilmente, mantinham-se nas imediações, em jeito de eu até participava mas vim aqui só p’ra ver o jogo, enquanto possivelmente reclamariam da vida que vai de mal a pior.
Estive na Praça Velha cerca de uma hora e quando abandonei o local, em direcção ao Museu de Angra do Heroísmo, encontravam-se agrupados cerca de duas dezenas de manifestantes. Levei comigo um sentimento de desilusão e de frustração com quase as mesmas proporções dos motivos que me levaram à manifestação. Restava-me a esperança de quando regressasse do museu o cenário fosse outro, para melhor, em termos quantitativos.
Enquanto percorria o curto trajecto que separa a Praça Velha do Museu de Angra do Heroísmo questionei-me por onde andariam todas as pessoas que por um motivo ou por outro (muitas por vários motivos) queixam-se do actual estado do país, da europa e/ou do mundo. Refiro-me a pessoas que desabafam que isto assim não pode continuar quando conversam no café, no supermercado, no local de trabalho, enfim, onde quer que se encontrem. Não são poucas essas pessoas, bem pelo contrário, e todos os dias as encontramos – são os vizinhos, são os colegas de trabalho, são os conhecidos, os amigos… somos nós próprios!
Estariam essas pessoas conformadas? Resignadas? Não teriam ainda percebido que o problema que Portugal atravessa é muito maior e mais grave do que a eliminação dos subsídios de férias e de Natal? – o que por si só é um enorme problema para a maioria das famílias portuguesas afectadas por esta medida prevista no Orçamento de Estado para 2012 (se para muitos portugueses sobreviver já era um luxo, a partir de agora será para tantos mais). Não teriam ainda compreendido que o problema que vivemos actualmente não surgiu do dia para a noite, mas que foi construído ao longo das últimas décadas, não apenas em Portugal mas, sim, em todo o mundo dito ocidental. Ou simplesmente não teriam tido disponibilidade para demonstrarem a sua indignação?
Conhecendo relativamente bem a forma de estar das nossas gentes eu não esperava uma quantidade de manifestantes que viesse a ocupar toda a área da Praça Velha, como aconteceu no passado recente, em circunstâncias diferentes – desta vez não havia sardinhas e vinho à descrição com o alto patrocínio do dinheiro dos contribuintes (outros tempos…) nem o Benfica tinha ganho o campeonato ou a taça. Mas confesso que esperava uma adesão um pouco mais expressiva… sei lá, umas setenta ou oitenta pessoas, por aí – uma estimativa, minha, que teve como base nada mais do que a minha própria “ingenuidade”, chamemos-lhe assim.
Não cheguei a confirmar se durante o tempo em que estive no museu se apareceu mais algum indignado na Praça Velha (aparentemente não existem assim tantos nesta ilha), o que sei é quando lá regressei, passavam sensivelmente quinze minutos das 17:00 horas, já não havia sinais de manifestação. Desconheço se se terá dirigido para outro local, mas não me admiro que os manifestantes presentes tenham optado pela desmobilização face à fraca adesão, pelo menos no período em que estive presente.
Dirigi-me para o meu carro e regressei a casa. Entretanto ligo o rádio e um jornalista dá conta dos milhares de manifestantes em Lisboa e no Porto. É também nestas situações que eu sinto a insularidade na pele.
A manifestação de 15 de Outubro não tinha como objectivo ser apenas uma manifestação contra as medidas de austeridade atiradas às caras dos portugueses nos últimos meses. Foi um evento em larga escala, que decorreu em centenas de cidades em todo o mundo, contra a forma como a sociedade moderna (o que quer que isso signifique) tem sido conduzida. Naturalmente os protestos tiveram contornos específicos de acordo com os problemas de cada país, embora muitos se queixem do mesmo, quer a nível económico-financeiro, quer social e dos seus valores que têm sido progressivamente destruídos.
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

2 opiniões sobre “Manifestação dos indignados (Parte 1)”

  1. Efetivamente indignados somos muitos, todos aqueles que querem mais justiça estão nesse grupo.
    Mas há várias razões que podem justificar por que a adesão agora foi menor inclusive em Lisboa que em Março, eis algumas:
    1. Há o reconhecimento de alguns que se abusou no passado e era preciso mudar, o benefício da dúvida ainda existe para o atual governo.
    2. Muitas das culpas é de quem agora está agora fora do poder, o réu que mais acusam ainda não é Passos.
    3. A incoerência do discurso torna-se mais evidente,sabemos que muitos não podem com mais austeridade, mas dizer que não devemos pagar a dívida quando nos estão a emprestar para fazer face às despesas do momento é aterrador.
    4. Queremos mais justiça, queremos mudar de caminho, mas a verdade é que ainda não soubemos ainda traçar o caminho que queremos e os indignados não o mostraram.
    5. há o medo de se ser conotado contra alguns dos poderes de que ainda alguns esperam subtilmente obter migalhas.

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  2. fui uma vez miguel. senti-me tal e qual como tu. vi-os desta vez, não parei, ia já atrasado. não sei se volto a manifestar-me. somos uns porras. sem tirar nem pôr. no 12 de março fui gozado por um amigo que tb é desses indignados de café. olham para quem se manifesta como um anormal, um atrasado mental. tudo uma cambada de cordeiros que só sabem falar nos cafés, em casa, no trabalho… e no facebook.

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