O monstro só cresce se o alimentarmos

A escassos dias do início do Euro 2012, o delírio em torno da selecção portuguesa de futebol já começa a tomar os contornos que bem conhecemos. Uma das consequência directas do frenesim que se aproxima é o habitual cliché “Enquanto Portugal estiver em jogo ninguém se lembra da crise”. Note-se que a crise aqui empregue é tão somente a crise financeira – a que mais sentimos no bolso, que é o que interessa, portanto.
Porém, este texto que o Marco publicou no Bitaites pôs-me novamente a pensar numa outra crise com que temos levado em cima há já demasiado tempo: a crise do mau jornalismo, sensacionalista e fiel seguidor do conceito big brother que tantos portugueses, e portuguesas, alimentam através das audiências televisivas.
Aproveitemos então os próximos dias (ou semanas, caso Portugal passe a fase de grupos, como esperamos que venha a verificar-se) para prestarmos mais atenção às restantes crises que nos assolam no dia-a-dia, nomeadamente a referida no parágrafo anterior. Tentemos perceber o que está errado, e o que podemos tentar mudar, numa sociedade que deixou de tratar-se a si própria com o respeito que um dia terá merecido – digo eu. O monstro só cresce se o alimentarmos.
Confesso que não tenho grandes expectativas relativamente às reacções que a generalidade dos telespectadores possa vir a manifestar no que concerne aos “detalhes” do dia-a-dia da selecção. Mas, se pudermos optar por uma de duas reportagens acerca da equipa das quinas (e podemos), prefiramos ouvir uma explicação acerca dos motivos que devemos considerar para que o Cristiano Ronaldo não possa (nem deva) ser visto como o salvador da equipa, no lugar de ficarmos a saber quantas vezes ele terá telefonado à sua namorada (sei que é uma modelo estrangeira, mas ignoro o nome da moça e sinceramente não me interessa saber).
Uma outra sugestão: se é daqueles adeptos que perde trinta minutos hipnotizado em frente ao ecrã da televisão, a observar a nulidade informativa que é um autocarro a percorrer o trajecto entre o hotel e o estádio, tente resistir ao mau jornalismo de que está a ser vítima e faça o seu próprio jornalismo, pesquisando na Internet (já que ela está aqui à mão) informações de interesse acerca da cidade onde a equipa portuguesa disputará o jogo. De repente até reconhece na cidade um local de interesse turístico, na eventualidade de um dia a crise (a financeira) acabar, por obra e graça sabe-se lá de quem, proporcionando dessa forma aquela margem de folga no orçamento familiar para gozar uns merecidos dias de férias além fronteiras.
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

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