Como diz o outro, o cão deixa no passeio o que o dono tem na cabeça.

Durante a habitual corrida à beira-mar (parcialmente à beira-mar), na cidade onde vivo, a Praia da Vitória, cruzei-me com uma senhora que deve andar na casa dos quarenta e com o seu caniche com um ar enfronhado provocado pela indumentária com que desfilava naquele fim de tarde. Agachado no meio do passeio, o canino cagava, alheio ao que ela ridiculamente dizia: «Não… não… não…» – como se ele porventura viesse a aceder ao pedido da senhora e interrompesse aquele momento de puro e espontâneo alívio orgânico. Segui em frente.
Cerca de três quilómetros adiante dei meia volta e percorri o mesmo trajecto, no sentido contrário. Não tornei a cruzar-me nem com a senhora nem com o canino. Cruzei-me, sim, com a excremento que o animal deixou no meio do passeio. Ainda estava fresco. 
O animal não se deu ao trabalho de levar de casa um saco plástico para a eventualidade mais do que óbvia. Ou o animal não sabe que quando um animal sai à rua para passear tem tendência a cagar no passeio?
Continuei a corrida, a caminho do sétimo e último quilómetro daquela sessão, evitando todas as minas deixadas por animais no passeio marítimo da Praia da Vitória. Um cenário francamente lamentável em qualquer cidade.
Corria e recordava a primeira vez que vi colocadas numa zona de lazer de uma cidade caixas com sacos plásticos prontos a usar para a recolha e depósito das matérias fecais expelidas pelos animais – merda, claro. Foi em Genève e na altura comentei com alguém que, por motivos profissionais, deslocava-se frequentemente àquela cidade, que aqueles depósitos equipados com os sacos plásticos são um dos sinais das diferenças de comportamento e de civismo entre sociedades onde a consciência cívica e colectiva não tem comparação. Ou melhor, tem comparação, sim, e de que forma.
Tanto quanto percebi, por via da explicação da tal pessoa de quem eu me fazia acompanhar, os habitantes de Genève até levam de casa um saco plástico para utilizarem na manutenção da limpeza do espaço público, sendo que utilizam os sacos existentes nos depósitos apenas como último recurso. Não estou em condições de confirmar se assim é, uma vez que não surgiu nenhuma oportunidade que me permitisse observar tal comportamento, mas a ser verdade, não me espanta. O que me deixa esgazeado (quando já devia estar mais que habituado) é a triste realidade com que nos deparamos por cá. Não se trata de um grande mal inerente ao comportamento da nossa sociedade, mas reconheçamos, contribui.
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

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