A respeito do despesismo do Estado

Entro numa repartição pública a fim de tratar um assunto do meu interesse na qualidade de cidadão cumpridor das suas obrigações fiscais, tiro o ticket com o número 89 e aguardo a minha vez para ser atendido.
Sentado, a aguardar que o n.º 87 dê lugar ao n.º 88 (afinal o que somos para a máquina fiscal senão números), observo o ambiente onde me encontro. À minha direita, um homem impaciente reclama, entre dentes, computadores novos para aquele serviço – para ele, o mal da longa espera está no lento processamento das máquinas. É possível, não sei. À esquerda, dois homens que me parecem pai e filho discutem a melhor forma de abordar um terceiro membro da família em relação à partilha da herança (parece-me que se o outro não abrir os olhos será enganado).
A área onde estão dispostas as secretárias e todo o equipamento de escritório presente naquela secretaria do Estado é rodeada por seis janelas, todas elas com as persianas corridas até abaixo. Lá fora, o sol matinal projecta uma luz natural de meter inveja a qualquer lâmpada por muito potente e económica que seja. Cá dentro as lâmpadas fluorescentes, todas elas ligadas, dizem-me (confirmam) porque o despesismo é muitas vezes uma espécie de ovelha negra na enorme família que é o Estado.
Trato o que tinha a tratar e abandono o local com a firme convicção (mais uma vez) de que o Estado faz das tripas coração para amealhar tudo o que pode através da máquina fiscal.
Pouco depois, a notícia de abertura no telejornal dá conta dos mais que possíveis novos cortes nas reformas dos antigos funcionários públicos.
Se é certo que o Estado dos governantes vive muito acima das minhas possibilidades, não é menos verdade que o Estado no seu todo anda lá perto.
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

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