O xadrês e o palhaço

Eu sabia que ia acontecer, mais cedo ou mais tarde: a Leonor querer alterar as regras do jogo, para variar. Vai daí, ela sugeriu que pudéssemos movimentar todas as peças livremente, em todas as direcções e em todos os sentidos, sem distinção de poderes distribuídos pela hierarquia. Ou seja, o xadrês tornar-se-ia numa espécie de anarquia assumida e controlada, aceite por ambas as partes.
Hesitei. Regras são regras. Regras são regras, sim, mas não há-de vir mal ao mundo se permitirmos que sejam violadas uma vez por outra, desde que tenham origem na vontade e na imaginação de uma criança e, sobretudo, não prejudiquem alguém. Aceitei a proposta, consciente que, conhecendo a minha filha, as novas regras poderiam vir a ser alteradas a qualquer momento, o que, deixei claro, não iria aceitar – novas regras sim, mas depois de apresentadas e discutidas não seria permitido alterá-las consoante a direcção do vento.
Em rigor da verdade, gostei de ver que a Leonor aplicou no xadrês, embora inconscientemente de que o fazia, aquela que é talvez a principal das regras de uma sociedade sem classes: o princípio da igualdade.
O jogo será retomado com base nas regras que lhe são reconhecidas.
Durante a conversa que desenvolvíamos sobre nada e sobre tudo, a Leonor confidenciou-me que na noite passada sonhou com um palhaço. Pensei que teria sido um daqueles pesadelos com palhaços, aquelas figuras engraçadas e cómicas, e em simultâneo sinistras e assustadoras. Enganei-me redondamente. Afinal o palhaço era engraçado, cómico e largava bufas silenciosas e coloridas. Parece que aquilo foi um festival de cores.
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

One thought on “O xadrês e o palhaço”

  1. Meu Caro,

    O que dizes, sabes bem, sabemos bem, é muito profundo.
    Poderiamos falar sobre o porquê de uma criança pretender alterar as regras, mas julgo que isso é do campo das ciencias que estudam o crescimento cognitivo dos nossos filhos….
    Poderiamos por outro lado, e essa é a conversa de adultos, sobre a questão das regras poderem ser violadas
    Poderiammos, ainda com mais interesse, abordar a questão das regras poderem ser livremente aceites e criadas pela comunidade …neste caso os jogadores de xadrez….mas nada diferindo de uma comuna, bairro, etc….

    O problema disso tudo é que sempre nos ensinaram a jogar xadrez desta forma e mesmo quando todos queremos escolher um rumo diferente, ainda que com base no que é real, nas peças e no tabuleiro….acabamos por ficar presos às velhas leis….

    Construir um sistema libertário exigiria assim duas tarefas…uma revolução exterior….mas só depois da grande revolução interior…

    Academicamente falando, claro.

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