Trinta (quilómetros, que a idade, essa, já vai com mais dez em cima).

Lembro-me bem da corrida em que quebrei a barreira mental dos 15 km. Naquele dia corri pouco mais de 17 km e a felicidade que senti por ter superado um obstáculo que estava a impor involuntariamente a mim próprio há demasiado tempo fez-me perceber que na corrida, tal como na vida, as barreiras existem para que possam ser deixadas para trás, ou pelo menos para tentarmos que assim seja. Desde aquele dia nunca mais olhei para a distância como obstáculo ao prazer que sinto quando corro – cheguei aos 21 km, depois aos 25 km e, anteontem, aos 30 km.
Saí de casa com os trinta na mente, mas não totalmente assumidos. O ritmo da corrida e a capacidade de esforço físico iriam ditar se eu conseguiria atingir o objectivo que coloquei a mim próprio, sem compromisso, afinal o que eu queria mesmo era correr, apenas correr. A distância mínima estava estabelecida e a partir daí o que viesse seria muitíssimo bem-vindo. Estava bem fisicamente e sabia que venceria os 30 kms se decidisse enfrentá-los. E foi o que decidi quando já levava nas pernas um pouco mais do que um terço da corrida. Para trás tinham ficado 12 km. Bebi água e comi meia mão de passas. Senti-me forte e decidi ir até ao fim, em vez de voltar para trás. Se tivesse regressado seriam mais 12, no total 24. A força que senti garantiu-me que chegaria aos 30. Ao passar o quilómetro vinte meti um gel (repositor energético para fornecer energia aos músculos e glicose para a manutenção da glicemia), bebi água e continuei até ao fim sem olhar para trás.


Se fisicamente a corrida, em toda a sua extensão, não me custou mais do que era suposto, o mesmo não posso dizer do ponto de vista mental – não criei qualquer barreira de distância, nada disso, pelo contrário, estava empolgado. O que custou a este nível, principalmente a partir do vigésimo quarto quilómetro, ou vigésimo quinto, por aí, foi correr sozinho. Nesta fase, fez-me falta uma companhia que partilhasse comigo o ritmo, o esforço e, sobretudo, o prazer de avistar a chegada “já ali à frente”.
Por norma não tenho problemas em correr sozinho, aproveito para pôr a cabeça em ordem. Mas no que respeita a distâncias mais longas, prefiro correr acompanhado, quer seja com os amigos com quem tenho o prazer de correr habitualmente, quer com desconhecidos (como aconteceu recentemente na XIV Meia Maratona dos Bravos e no Azores Trail Run). Mas se tiver que correr tendo como única companhia os meus próprios pensamentos, p’rá frente é que é caminho: a mente acompanha o ritmo e a respiração, e todos os estímulos que me envolvem, desde o canto dos pássaros ao soprar do vento e ao cheiro do mar.
Para muitos, 30 kms de corrida é algo inconcebível, inalcançável. Para outros é apenas uma distância obtida por uma unidade de medida. Correr dez, vinte ou trinta quilómetros significa basicamente o mesmo. A diferença reside nas capacidades física e mental para correr mais e melhor, e isso trabalha-se, treina-se. Correr distâncias longas exige treino físico e mental na mesma medida. Portanto, venham os 40, 50, 60… e quantos mais quilómetros tiverem que vir. Corro porque posso e enquanto puder correrei. Se não o fizer estarei a desperdiçar um recurso maravilhoso que me permite sentir-me livre.

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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

2 opiniões sobre “Trinta (quilómetros, que a idade, essa, já vai com mais dez em cima).”

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