Os primeiros 42 km de uma assentada só.

Nota introdutória:
Este é um resumo da minha primeira corrida de longa distância: 42 km. Corri-os no passado sábado, dia 23 de Agosto de 2014. É uma das datas que marcarão o resto da minha existência.
Por diversas razões, que, de uma forma geral, podem facilmente ser resumidas a duas, não se tratou de uma maratona oficial, digamos assim. Primeiro, não corri numa prova oficial, organizada por uma ou mais entidades ligadas ao atletismo, por norma. Segundo, corri apenas 42.120 metros, quando a maratona contempla 42.195 metros. Além desta característica técnica, existem mais duas ou três que se prendem igualmente com o factor distância, directamente relacionadas com os pontos de início e de fim da corrida, e com o desnível do percurso, mas não vou debruçar-me sobre estes pormenores – para mim foi uma maratona.
Para finalizar esta nota introdutória, não posso deixar de referir que completar os meus primeiros 42 km em corrida foi uma vitória colectiva, ou seja, todas as seis almas que alinharam à partida chegaram ao fim da distância proposta. Foi bonito. Posto isto, vamos ao que interessa.
Começando pelo fim, e a título pessoal, os últimos dois quilómetros foram os mais penosos. Corri-os com o joelho esquerdo a pedir para lhe dar descanso e só não lhe dei ouvidos porque a “meta” estava a menos de dois mil metros de distância. Antes de chegar a esta fase, já tinha deixado para trás as freguesias das Lajes, Vila Nova, Agualva, Biscoitos, Altares, Raminho, Serreta, Doze Ribeiras, Santa Bárbara e Cinco Ribeiras, num total de quarenta quilómetros corridos. Faltavam apenas mais dois.
Mas vamos por partes
Tudo começou com um convite vindo do Paulo Fernandes para corrermos 42 km aqui na Terceira, durante a sua estadia em férias cá na ilha, de onde é natural. Decidi arriscar e aceitei o convite – se chegasse ao fim, maravilha; se não conseguisse, ficaria com a consciência tranquila uma vez que teria tentado e não dormiria com a dúvida se teria conseguido ou não completar a distância proposta. E foi assim que a cerca de oito semanas do dia da corrida desenhei uma espécie de plano de treinos, adaptado de um plano para doze semanas. Em rigor da verdade, tenho que reconhecer publicamente que não o segui à risca. Digamos que ao longo das últimas oito semanas fiz uma série de adaptações ao plano inicialmente adaptado. Se se tratasse de uma maratona a sério no plano desportivo a coisa poderia ter corrido menos bem, considerando o meu ritmo habitual. Como fomos com uma atitude muito descontraída e nenhum dos participantes tinha a preocupação em fazer um bom tempo (a título pessoal, claro), tudo correu pelo melhor.
No dia marcado (na realidade antecipámos um dia), fomos seis a alinhar na partida, em frente à igreja das Lajes: o Bruno, o Paulo e Paula, o Miguel e a Lisandra e eu próprio. Passavam poucos minutos das 08h quando iniciámos a corrida. O tempo estava radioso para uma manhã de praia, o que significa que para correr não era o melhor, mas nem o facto de São Pedro não querer colaborar connosco nos demoveu, mesmo sabendo que iríamos levar com o sol em cima. Quantos quilómetros, logo se veria. Os objectivos estavam definidos, os dados lançados e as pernas já corriam os primeiros metros. À nossa frente, o Rodrigo, filho do Bruno, pedalava na sua bicicleta, e naquele que foi o carro de apoio desde o início, o senhor Fernando, pai do Paulo, seguiu em direcção ao primeiro ponto de abastecimento (a partir da freguesia dos Biscoitos contámos também com o apoio da Fábia, esposa do Bruno, que nos acompanhou também de carro até à chegada).
Os primeiros trinta quilómetros foram percorridos com base numa gestão de esforço muito controlada, a um ritmo que nunca desceu abaixo dos 6:00 min/km. O motivo deste controlo do ritmo foi muito simples: evitar o excessivo desgaste físico e, consequentemente, chegarmos à freguesia da Serreta com força para corrermos os últimos vinte quilómetros sem grande dificuldade, além do desgaste esperado naquela fase da corrida – a partir daquele ponto entraríamos na parte mais plana do percurso e com mais descidas do que subidas.
Um pouco antes, a poucos metros de alcançarmos o quilómetro vinte e cinco eu sentia-me muitíssimo bem disposto, mas sabia que a partir daquele momento o esforço seria mais intenso, quer pelas subidas que nos esperavam nos cerca de cinco quilómetros que teríamos pela frente até completarmos os trinta, quer pelas cerca de duas horas e cinquenta minutos que tínhamos de corrida até então. No entanto, a disposição física e a psicológica eram as melhores, considerando o que já estava corrido. E o grupo tinha vontade para correr mais.
Como esperado, alcancei o topo da última grande subida da freguesia da Serreta com reservas suficientes para continuar a correr os últimos vinte quilómetros.
A corrida continuou bem durante os dez quilómetros seguintes. As passadas estavam soltas e o corpo acompanhava-as na mesma medida. Porém, o joelho esquerdo começou a queixar-se um pouco – como referi acima, no início do texto – quando passávamos na freguesia de Santa Bárbara. Com receio de que a ameaça de dor se tornasse numa realidade e pusesse em causa todo o esforço e consequente prazer que eu tinha investido até então, decidi abrandar um pouco o ritmo.
A cerca de dois quilómetros do objectivo, vi (senti, na verdade) confirmado o meu receio: o joelho esquerdo estava claramente a acusar o esforço aplicado nos quarenta quilómetros que tinham ficado para trás. Como também referi no início deste texto, nesta fase entrei naquela que viria a ser a mais difícil e penosa de toda a corrida. Por uma milésima de segundo pensei em parar, mas sabia que isso estava fora de questão – seria “morrer de sede à beira-mar”. Respirei fundo e continuei a correr, muito devagar e quase sem dobrar a perna esquerda. Foi duro, mas valeu a pena, garanto-vos.
Para mim, a corrida acabou pouco antes de chegar ao Negrito, local onde seria suposto terminar esta maratona. Contudo, os quarenta e dois estavam aviados, com um brinde de 120 metros (e não os 195 de uma prova oficial).
Chegado ao Negrito, iniciei o alongamento e entrei lentamente na água fresca e salgada do mar. Soube-me pela vida. Estava feliz e nem queria acreditar na distância que tinha corrido, percorrendo toda a estrada que liga as freguesias das costas norte e sudoeste da ilha. Que loucura!
Obrigado ao Paulo Fernandes, à Paula Filipa, ao Miguel Aires Martins, à Lisandra Meneses e ao Bruno Costa por partilharem a estrada comigo durante os nossos primeiros 42 km de uma assentada só. Obrigado ao Sr. Fernando Fernandes e à Fábia Costa pelo respectivos apoios durante o percurso. E obrigado ao Rodrigo e à Alice pelas palavras de apoio nos derradeiros quilómetros da corrida – aquela “Corram lesmas!” vai ficar na história.
Infelizmente, quando se proporcionou o momento para a fotografia de família, já o Bruno, a Fábia, o Rodrigo e a Alice tinham ido embora do Negrito. Estavam atrasados para um almoço de família e por este motivo não ficaram no quadro. Porém, a fotografia que mais interessa é a que está gravada na nossa memória colectiva.

Da esquerda para a direita: Sr. Fernando, Paulo, Paula, Lisandra, Miguel Aires e este vosso irmão.
O click fotográfico teve o dedo da minha Leonor. 
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

3 opiniões sobre “Os primeiros 42 km de uma assentada só.”

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