A propósito da dignidade (sem querer ser demasiado picuinhas)

A dignidade de cada ser humano mede-se pela sua capacidade de reconhecer que uma pessoa é em si mesma um fim, nunca um meio. – José Luís Nunes Martins

A reacção do primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, relativamente às declarações do actual presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, foi a que se esperava, considerando a natureza política e governativa do líder (em território nacional, entenda-se) da corja que governa em Portugal actualmente.
Recordo que Juncker afirmou que a troika pecou contra a dignidade de portugueses, gregos e também irlandeses, reiterando que é preciso rever o modelo e não repetir os mesmos erros. Por sua vez, Passos Coelho respondeu o que qualquer político com o nível de dignidade que ele próprio representa responderia, afirmando que a dignidade dos portugueses nunca esteve em causa.
Eu não quero ser picuinhas, como o primeiro-ministro chegou a qualificar os portugueses que, como eu, se sentem indignados, mas… caramba, em que país vive este homem? Quer o primeiro-ministro fazer-me crer que a dignidade de um povo não foi ferida com a intervenção da troika? Estou a falar de um governante que em Janeiro de 2012 afirmou convictamente que o programa de ajustamento seria para cumprir custasse o que custasse, e que há dias disse que deve-se fazer tudo para salvar vidas, mas não custe o que custar (a propósito dos custos associados ao tratamento de hepatite B) – são as palavras do próprio, não as minhas, e uma breve pesquisa online demonstrará isso mesmo. Como pode Pedro Passos Coelho afirmar que a dignidade dos portugueses não está nem nunca esteve em causa se é ele próprio a condicioná-la com as suas próprias palavras?
Permitam-me falar um pouco da ferida que a troika e o actual governo abriram na dignidade de Portugal e do povo português, o povo que trabalha e trabalhou toda uma vida, o povo que não vislumbra um futuro digno à sua frente e o povo que ainda não tem consciência da miséria em que está metido. Isto sem esquecer os anteriores governos do “arco da governação”, que proporcionaram governações desastrosas e demagógicas ao longo de anos: Soares, Cavaco, Guterres, Durão Barroso e só não meto aqui o Portas porque a esse nem me dou ao trabalho de dedicar mais do que estas dezasseis palavras.
A dignidade de Portugal é ferida todos os dias, sábados e domingos e feriados incluídos, em que são pagos cerca de vinte e um milhões de euros de juros da dívida, sem que o primeiro-ministro queira sequer ouvir falar na renegociação que possibilitaria evitar um roubo aos cidadãos em benefício da banca, quer da portuguesa quer da europeia. Falo de valores pagos em juros que ao fim de um ano equivalem aos orçamentos da saúde e da educação somados.
A dignidade de Portugal tem sido ferida todos os dias de há cinco anos a esta parte, durante os quais o fosso da desigualdade entre os rendimentos dos 10% mais ricos em relação aos 10% mais pobres aumentou progressivamente e não dá sinais de abrandar, criando uma sociedade cuja estrutura assenta cada vez mais na desigualdade de oportunidades de acesso a bens e serviços essenciais ao comum dos cidadãos: saúde, educação e justiça.
A dignidade de Portugal tem sido ferida todos os dias em que o custo do trabalho é desvalorizado e a precariedade do emprego é cada vez mais aceite nos gabinetes governativos, como se ter emprego e trabalhar honestamente fosse um privilégio (no fundo acaba por ser, pelos piores motivos) e não um direito que deveria assistir à dignidade de qualquer pessoa – recordo que no mesmíssimo dia em que escrevo este texto existem cerca de setecentos mil desempregados em Portugal sem direito a qualquer tipo de apoio do Estado.
E poderia continuar com mais algumas demonstrações do que fere a minha, a tua, a nossa dignidade. Poderia referir a fome por que passam cada vez mais portugueses e as necessidades que enfrentam muitos milhares de reformados e pensionistas que trabalharam toda uma vida e que agora se vêem a braços com uma realidade dramática. E poderia referir tantos outros factos resultantes da intervenção da troika e das medidas extra memorando implementadas pelo governo que se auto intitula responsável. Mas fico por aqui. Quem sabe do que falo, sabe o que quero dizer.
É neste cenário que temos um fulano, eleito com base em promessas entretanto rasgadas como se nunca tivessem sido dadas a conhecer num programa de governo, a dizer que a dignidade de Portugal, do povo português, nunca esteve em causa.
Com todo o respeito pela senhora, até porque trata-se de uma força de expressão e não tem como objectivo ofender a sua dignidade: puta que o pariu!
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

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