Correr, sim, com cabeça.

Há quase um ano que aguardo o dia 30 de Maio, dia em que correria pela primeira vez uma prova de ultra trail, e nos últimos meses tenho preparado-me fisicamente e mentalmente para ela: os 48 km do Faial Costa a Costa, no Azores Trail Run (ATR). Esta distância, nesta prova, inauguraria a minha experiência numa ultra (das pequenas, é verdade, ainda assim ultra). Porém, sinto-me agora forçado a ter que desistir deste objectivo ainda antes de alinhar à partida – desistir este ano, sublinho -, devido a lesão contraída recentemente e cuja recuperação total tarda em chegar.
Apenas por uma questão de reconforto emocional, deveria substituir a palavra “desistir” por “reconheço”, o que equivale a dizer que reconheço que não estou em condições para atingir o objectivo a que me propus há cerca de um ano. Isto porque magoei o joelho direito numa situação provocada por excesso de esforço num momento específico, o que é diferente de esforço excessivo provocado ao longo de um determinado período de tempo. Sei quando o magoei. Não dei a devida importância e o joelho reclamou-a, com juros, dias mais tarde.
Não sou atleta, mas tenho alguma experiência que me permite admitir que errei e deixei-me levar pelo excesso de confiança, não atribuindo a importância merecida ao incómodo inicialmente sentido no joelho. De incómodo passou a dor e de dor passou a gelo e anti inflamatório, pausa forçada nos treinos e exercícios leves de recuperação. Passadas praticamente três semanas ainda não regressei ao activo, e até que o faça na plenitude das minhas capacidades ainda terei que passar por corridas suaves no âmbito da minha recuperação.
Interrompi assim forçosamente o plano de treinos que estava a seguir e perdi o ritmo que, sem qualquer modéstia, se encontrava num ponto muito interessante. Consequentemente, mas não menos importante, perdi também a confiança que tinha para lançar-me ao desafio a que me propus quando terminei os 21 km da prova Trail dos 10 Vulcões, na edição de 2014 do ATR. Portanto, os 48 km do Faial Costa Costa ficar-me-ão “atravessados na garganta” até à edição de 2016.
Correr parece fácil, mas não é. Ou seja, correr por correr, sem ter consciência das capacidades físicas e dos limites que o corpo pode atingir, não é correr, é desafiar riscos desnecessários. No meu caso pessoal, e como já referi diversas vezes, correr é antes de tudo um prazer.
Ora, insistir nos 48 km sem me sentir fisicamente preparado nem com a confiança necessária para o fazer, teria possivelmente um de dois resultados: 1) terminar com estragos de ordem física,  acima do que é considerado aceitável, nomeadamente no joelho agora lesionado; 2) não terminar a prova. Em qualquer dos desfechos, receio que não viesse a tirar gozo nem prazer durante o Faial Costa a Costa, e como corro por prazer, não faz sentido “correr este risco”.
Assim, regressarei este ano ao Azores Trail Run, sim, mas correrei os 21 km do Trail dos 10 Vulcões, à semelhança do que fiz no ano passado. Desse dou eu conta, com a preparação que trago dos últimos meses, associada ao período de recuperação que terei até ao fim de Maio próximo e bem mais acessível para este objectivo mais curto e menos exigente.
Estou desiludido, mas confiante e consciente que fiz a escolha acertada. Será divertido correr novamente os 21 km do Trail dos 10 Vulcões, como foi em 2014. Se terminarei com disposição física para me arrepender de ter optado por desistir dos 48 km, foi uma das perguntas a que fiz a mim próprio antes de tomar a decisão que tomei. É possível que sim, que termine com ganas para correr mais. Contudo, e como me disse o Mário, quando falámos há pouco sobre a minha decisão: correr, sim, mas com cabeça. Concordo. Correr com cabeça não se limita aos momentos em que estamos na estrada ou nos trilhos.
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

2 thoughts on “Correr, sim, com cabeça.”

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