Receios

Não faço questão de dizer que tenho duas filhas. Não sou dono ou proprietário delas, sou pai. Prefiro dizer que sou pai de duas filhas. A mais velha tem nove anos de idade, a mais nova quase dois.
Como qualquer pai, ou pelo menos como a maioria de nós, pais, preocupo-me com o futuro de ambas e, não menos importante, com a formação do carácter de cada uma delas.
Ontem, também eu tive conhecimento, através da comunicação social, de mais uma situação de agressão física e psicológica, designada por bullying. A agressão foi filmada e pelo que percebi o vídeo atingiu proporções épicas no que respeita à sua divulgação e visualização nas redes sociais e depressa saltou para os noticiários na televisão. Não vi o vídeo, confesso. Li a notícia num jornal, onde o vídeo foi inserido a meio do texto do artigo, mas não o vi. Sei, contudo, que a vítima foi um rapaz e que as agressões foram levadas a cabo por um grupo maioritariamente composto por raparigas. Raparigas adolescentes, tal como as minhas filhas serão.
Não tenho dificuldades em deduzir como se terão desenrolado os minutos de agressão: ameaças verbais e físicas, rapidamente aplicadas na prática, sempre acompanhadas de pressão psicológica. Para o rapaz, aqueles minutos foram garantidamente eternos. Pior, serão eternos. Não sei o que motivou a humilhação de que foi alvo, mas tenho a certeza de que aqueles minutos marcarão para sempre a sua existência, por muito que ele consiga contorná-los no futuro – se conseguir.
Como pai de duas crianças, futuras adolescentes, receio não conseguir transmitir-lhes, como pretendo, a importância e o valor do respeito pelo próximo e da tolerância à diferença. Espero francamente, na qualidade de pai e de cidadão, nunca ter de deparar-me com uma situação em que as minhas filhas possam ser agressoras estúpidas e inconscientes, na mesma medida em que possam estar na pele de quem sofre uma agressão. Em qualquer das situações, por muito que os motivos fossem alheios à minha responsabilidade (directa ou indirectamente), tenho a certeza de que sentiria sempre que teria falhado como pai.
Por outro lado, sei que falho e falharei no meu desempenho não só como pai, mas igualmente enquanto educador. Se assim não fosse, seria sinal de que algo não estaria bem. Porém, na vida temos falhas que podem marcar para sempre a existência de alguém que se encontra numa posição mais fraca, e se há coisa que eu não suportaria seria a possibilidade de uma das minhas filhas aproveitar-se da fraqueza de outra pessoa, humilhando-a. Tal como receio a possibilidade de uma delas ser humilhada por alguém que nestas situações demonstra o complexo de inferioridade de que sofre, procurando compensá-lo com a sensação de superioridade e de poder.
Um pai carrega muitos receios. Há que aceitá-los e fazer por conseguir lidar com eles da melhor maneira possível, o que nem sempre é fácil.
Anúncios

Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

Uma opinião sobre “Receios”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s