O snack bar, a ementa e tudo mais em pouco mais de três minutos.

Entro no café (estabelecimento) para beber um café (bebida preparada com semente do cafezeiro) e cumprimento os presentes: a proprietária – tanto quanto percebi – e dois homens que, pela postura, não deixam grande margem para dúvidas: são clientes habituais e aquele espaço é apenas mais uma extensão das suas próprias casas.
Peço um café. O telefone toca e a senhora atende-o. “Snack Bar… (nome do estabelecimento)” – diz ela. Perdi a vez.

Aguardo. Olho para a esquerda. Os dois homens olham para mim. Volto a cumprimentá-los, acenando apenas a cabeça ligeiramente para baixo. Devolvem-me o cumprimento tal como o fiz, em jeito de confirmação de que a educação é algo com um valor que tem tanto de humilde como de gracioso.

Olho em frente e reparo no pequeno quadro negro de ardósia, onde está escrita, à mão, a ementa do dia: sopa, carne, peixe. Assim, simples, curto e directo. Não há cá esquisitices de carninha à moda disto ou daquilo, nem peixinho grelhado ou frito. É carne e peixe. Ponto. E a sopa (não pode faltar a sopa). Não creio tratar-se de um cremezito de qualquer coisinha.
Snack bar…, penso com os meus botões. Nos snack bares, a meio da manhã, não se bebe Macieira, nem Constantino ou 1920 (não é o ano, é a bebida espirituosa e talvez por isso diz-se mil nove e vinte), enquanto o “Você na TV”, da TVI, passa na televisão, muda e praticamente ausente, não fossem as imagens que surgiam no LCD fixado na parede à minha direita.
O auscultador é devolvido à sua proveniência. É só o café?, pergunta-me a senhora, ao que respondi afirmativamente com o sim senhora que os meus pais me ensinaram.

E bebi-o, recordando – a propósito da pergunta feita pela senhora – um episódio passado há uns anos na Sociedade de São Brás. Fui lá, à Sociedade, com dois amigos beber café após o jantar. Um deles pediu o seu café pingado, ao que o homem que estava ao serviço questionou: Com whisky ou brandy?… E o João lá esclareceu que deveria ser com leite. O homem ficou parado a digerir a resposta e poucos segundos depois perguntou, de forma a ter a certeza de que tinha ouvido bem: Leite?!!


Posei a chávena e saí, não sem antes tornar a desejar votos de um bom dia. Um deles agradeceu enquanto o outro acendia um cigarro. Não tenho ideia de ter visto nem a permissão, no fundo azul, nem a proibição, no vermelho. A senhora já tinha regressado à cozinha.

Continuo curioso com a ementa do dia… Um destes dias passo por lá à hora de almoço e se a descrição da ementa não apresentar alterações, daquelas que nos dizem os pormenores que às vezes nem nos interessam, peço a sopa e um dos pratos do dia sem sequer perguntar o que é.

Snack bar… pff… Que raio de tolice dar nomes estrangeiros ao que é tão genuinamente nosso.

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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

2 opiniões sobre “O snack bar, a ementa e tudo mais em pouco mais de três minutos.”

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