"Uma mentira", por José Luís Peixoto

Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita importância. Tomamos decisões, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que virá a seguir, o futuro até ao fim dos tempos, será diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignificâncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa é uma máquina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros têm da realidade, leva-os a acreditar que é aquilo que não é. Essa poluição vai turvar-lhes a lógica do mundo. As conclusões a que forem capazes de chegar serão calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas serão multiplicações de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. É por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo não lhe dá cobertura. Para alcançar coerência, cada mentira requer a criação apressada de um mundo de mentira que a suporte. É assim que a mentira vai avançando pela verdade adentro, como uma toupeira cega a abrir túneis e câmaras no interior da terra. Quando se abre a boca para libertar uma mentira, a primeira, filha de nada que a justifique, nunca se consegue ter noção completa de onde chegará. Nesse momento, na inocência aparente, com voz de gatinho acabado de nascer, está a soltar-se um predador voraz, não há fronteiras marcadas para a sua fome. Uma mentira pode construir edifícios imensos, levantar cidades; uma mentira pode colocar em movimento milhares de pessoas, pode dar propósito a multidões incalculáveis, cada pontinho a ser uma cabeça com história; uma só mentira pode manter em cativeiro gerações inteiras de pessoas que ainda não nasceram, netos que os avós não são capazes de imaginar, ignorantes da mentira original que os domina.
José Luís Peixoto, in “Em Teu Ventre”
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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

3 opiniões sobre “"Uma mentira", por José Luís Peixoto”

  1. Pode parecer descabido, mas a imensa grande mentira que me ocorreu e que tem feito e continuará a fazer muitas vítimas é a ideia de que as escolas actuais ensinam alguma coisa às pessoas. A ideia de que aquilo tem que ser assim, que os professores fazem lá falta, que não é possível ser uma pessoa completa se não se passar por aquele vazio gritante que ninguém parece conseguir ver por detrás das vetustas vestes do Rei que vai totalmente nú.

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  2. Pela minha parte tenho cada vez mais a sensação de que a verdade, por oposição à mentira, é uma quimera. Como a liberdade. Uma abstracção. Um conceito que raramente vemos materializado. É como ser feliz. Vai-se sendo, embora seja muito difícil ser-se sempre.

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  3. A verdade tem sempre mais do que um espectro. Isso não me causa confusão, nem tão pouco desconforto. O que me incomoda, sim, é saber que muitas vezes a mentira passa por verdade apenas pelo facto de a capacidade para questionar ser nula, ou perto disso.

    Abraço a ambos, com saudade.

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