Três ilhas, três dias, três etapas (2016)

Um ano após a primeira edição do Azores Trail Run – Triangle Adventure (ATA) regressei a esta prova nos dias 7, 8 e 9 de Outubro com o objectivo de completar as três etapas que a compõem. Se no ano passado corri apenas uma etapa da prova, na ilha do Faial, este ano elevei a fasquia e atirei-me às três etapas. À semelhança da edição de 2015, este ano a prova decorreu nas ilhas Pico, São Jorge e Faial, formando assim um desafio de cerca de 100 km no triângulo açoriano.

Nesta edição de 2016 do ATA a Equipa Prius Synergy Drive Trail Running, a que tenho o prazer de pertencer, esteve representada apenas por mim e pelo Zé Maria Oliveira – o Zé juntou-se à equipa em Fevereiro deste ano, sendo que a primeira prova em que participou com a nossa camisa foi  o Columbus Trail em Santa Maria. Em Maio correu também connosco no Azores Trail Run 2016 na ilha do Faial.

Não puderam estar presentes no ATA 2016 o Telmo Soares, devido a motivos familiares, e o Valter Braga. No caso do Valter tratou-se de uma ausência que não estava de todo prevista e deveu-se a doença nas vésperas da realização da prova que o impediu de estar apto para alcançar este objectivo. Foi um murro no estômago após muitas semanas de preparação para o desafio, principalmente para ele, mas também para mim. Treinámos juntos para o ATA durante praticamente dois meses e sou testemunha da dedicação e do empenho que ele investiu na preparação para o Azores Trail Run – Triangle Adventure. Por ele corri todos os quilómetros nas três etapas. A ele dedico a minha satisfação pessoal por ter alcançado o nosso objectivo comum a que nos propusemos.

6 de Outubro – Secretariado, briefing e pasta party

Viajei da Terceira para o Faial na manhã de 5ª feira, 6 de Outubro. Quando cheguei à Horta já lá estava o Zé Maria à minha espera. A manhã foi passada num passeio calmo, aproveitando o bom tempo. Andámos pelo Monte da Guia e de lá descemos para a Praia de Porto Pim, onde nos sentámos numa esplanada a almoçar, continuando a pôr a conversa em dia. A parte da tarde foi passada no hotel a descansar. Teríamos três dias intensos a correr e a viajar de barco entre as ilhas do triângulo, de forma que era importante descansarmos na tarde da véspera da primeira etapa. Ao fim da tarde caminhámos calmamente em direcção à Sociedade Amor da Pátria, local onde estava instalado o secretariado e decorreria o briefing. Lá chegados, e ainda sem alcançarmos o último degrau da escadaria de acesso ao interior do edifício, encontrámos logo caras conhecidas de outras provas do Azores Trail Run. No secretariado aguardava-me o dorsal nº. 9 e muita conversa com amigos e conhecidos.

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Como é habitual, o director da prova, Mário Leal (entre o Zé Maria e eu na fotografia acima), apresentou o Azores Trail Run – Triangle Adventure 2016, fazendo algumas recomendações e adiantando outras tantas informações de carácter logístico, meteorológico, entre outros, e esclareceu as dúvidas levantadas pelos participantes. Terminado o briefing fomos para a pasta party, na qual a qualidade do jantar que nos foi servido esteve mais uma vez ao nível a que a organização do Azores Trail Run já nos habituou. Chegara a hora de dormir. O dia seguinte começaria bem cedo.

7 de Outubro – Primeira etapa: “Trail da Vinha à Montanha” – Pico

O dia começou com o pequeno-almoço às 06h. A primeira viagem de barco, para a ilha do Pico, teve início às 07h30m e, chegados à Madalena, iniciámos a primeira etapa às 08h45m na cota zero, ou seja ao nível do mar. O destino foi o cume de Portugal, na Montanha do Pico (2351m de altitude). A primeira fase do percurso foi percorrida no Lajido da Criação Velha, onde se situa a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, classificada pela UNESCO como Património da Humanidade em 2004. Deixando a Criação Velha para trás e à medida que perdíamos de vista as suas vinhas, iniciámos a subida gradual em direcção à Casa da Montanha através de caminhos agrícolas em terra, trilhos técnicos e pastagens. Pelo meio, reabastecemos no primeiro ponto para o efeito.

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Com cerca de 25 km de prova alcançámos a Casa da Montanha, a 1200m de altitude, onde se encontrava o segundo abastecimento. A primeira coisa que fiz, ainda antes de devorar uma tigela de canja quente, entre outros alimentos necessários para manter os níveis de açúcar e de sal no organismo e injectar calorias neste, foi vestir as calças de corrida, a camisola térmica e o pára-vento. A subida da montanha seria debaixo de alguma chuva acompanhada de um pouco de vento e de nevoeiro e havia a necessidade de ir preparado para as condições que nos esperavam. Depois de vestido e alimentado, lançei-me montanha acima. Subir os degraus que nos transportam do interior da casa para o início do trilho que sobe a Montanha do Pico após 25km de corrida é uma sensação estupenda – como disse o Zé, é à boss.

Não muito tempo após o início da subida percebi que a etapa mudara. Explico: para quem está bem preparado, correr os 25km de percurso que separam a Madalena da Casa da Montanha é uma brincadeira e foi isso mesmo que senti, acontece que subir a Montanha do Pico depois da tal brincadeira muda toda a prova. Ainda assim, mantém-se uma fase da etapa perfeitamente alcançável desde que estejamos preparados. Assim, subi e subi até deixar as nuvens abaixo de mim e encontrei um céu azul iluminado pelo sol. Nesta fase já os primeiros atletas a alcançarem a meta desciam a montanha e ofereciam-me, e a todos os que ainda a trepavam, palavras de incentivo e apoio – a beleza do trail running está também aqui, no apoio que damos uns aos outros, profissionais e amadores, nos momentos de maior desgaste e/ou de necessidade física ou psicológica. Lá alcancei a meta, localizada no ponto mais alto de Portugal. Ao meu lado estava o Miguel Judas (fotografia abaixo).

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A primeira da três etapas estava concluída e a mistura de sensações fez com que eu demorasse alguns minutos a digerir as últimas horas passadas em prova. Era tempo de relaxar, viver o momento e deixar-me levar pela imensidão que o topo da Montanha do Pico nos oferece. É certo que teria ainda a descida e esta não seria feita em total relaxe, dado que havia a necessidade de chegar lá baixo em segurança e livre de acidentes que pudessem comprometer as etapas seguintes. À minha espera estava uma merecida massagem de recuperação para o dia seguinte.

8 de Outubro – Segunda etapa: “Trail das Fajãs” – São Jorge

Depois de um bom jantar e uma noite bem dormida, o segundo dia também começou cedo. A viagem de barco para São Jorge estava marcada para as 08h40 e o horário foi respeitado. À nossa espera no porto das Velas estava o autocarro que nos transportou para o lugar de São Tomé, freguesia de Santo Antão. Após o segundo pequeno-almoço do dia, proporcionado pela organização da prova, a segunda etapa teve início às 11h00.

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Acima, na entrada no barco eu e o Zé conversávamos, possivelmente a rever a estratégia a adoptar na etapa. 🙂

Na fotografia abaixo, aguardávamos serenamente o momento da partida.

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Ao sinal da buzina percorremos poucos metros em asfalto e entrámos no caminho em terra que nos levou à descida para a Fajã de São João. Como quem desce também sobe, a saída desta primeira fajã do dia foi feita metendo nas pernas a primeira subida da etapa, com cerca de 500 metros de desnível positivo. E como quem sobe também desce, lá descemos para a Fajã dos Vimes, sempre em trilho, lá está. Um pouco antes de chegarmos à Fajã dos Vimes, onde é cultivado e saboreado o famoso café do senhor Nunes, tivemos o primeiro abastecimento do “Trail das Fajãs”. Mais adiante, sentadas no muro lateral da igreja, estavam cinco senhoras a puxar por nós, incentivando-nos com palmas. Elas sabiam que a subida para sair da Fajã dos Vimes não ficaria para trás sem dar luta. E era verdade… Até à cota de 700m de altitude, a escadaria de nos conduziu da fajã até à serra é, a determinado momento, uma força oculta que nos faz questionar porque carga d’água estamos ali. Sempre a subir, degrau após degrau, aquilo parece não ter fim. Porém, para a cima é que é e as duas canas que eu tinha agarrado antes do abastecimento (já a pensar nesta subida) foram as minhas pernas de apoio às pernas propriamente ditas. Chegado ao último dos degraus, entrei no trilho que me levou ao pasto onde avistei lá em cima o segundo abastecimento do dia.

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A segunda parte da etapa foi praticamente a acumular desnível negativo nas pernas, ou seja, a descer. Ao avistar a Caldeira da Fajã de Santo Cristo, olhei para o relógio e percebi que poderia terminar a etapa abaixo das cinco horas. Para isso teria de acelerar e como sentia-me solto e forte foi o que fiz. Entrei na caldeira famosa por ser um santuário do surf num ritmo abaixo dos 5min/km e assim continuei até sair dela e lançar-me no trilho com destino à meta, na Fajã dos Cubres.

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Terminei a segunda etapa num ritmo abaixo do que era suposto. Só depois lembrei-me que ainda teria a terceira etapa do ATA, a mais longa por sinal. Após cruzar o pórtico na chegada comi uma sopa de peixe e massa sovada. Enquanto esperava pela minha vez na fila para a massagem, o Zé Maria tratou de ir buscar para nós o isotónico de cevada.

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9 de Outubro – Terceira e última etapa: “Trail dos Vulcões” – Faial

Tivemos menos tempo de descanso entre a segunda e terceira etapas, ainda assim deu para recuperarmos razoavelmente bem para a derradeira etapa da prova. O “Trail dos Vulcões” acolheu também a prova “Volcanoes SkyMarathon”, na qual participou não só quem correu as três etapas do Azores Triangle Adventure, mas também quem optou por correr apenas esta prova do circuito nacional de sky running.

Após a viagem de barco, um pouco agreste, desde as Velas de São Jorge até ao Faial e do transporte em autocarro da Horta até ao Vulcão dos Capelinhos, o início da terceira e última etapa estava marcado as 1o:30h, mas sofreu um atraso de uma hora. O segundo pequeno-almoço da manhã decorreu no interior do centro de interpretação do vulcão e também de lá foi dado o sinal de partida. O local de início foi alterado devido ao mau estado do tempo que se abatia sobre nós. Para ficarem com uma ideia, iniciámos a etapa debaixo de chuva forte e trovoada. Foi surreal.

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O percurso começou logo ali em subida, num terreno que nos puxa para trás, não se tratasse de areia, vulcânica no caso – além do elefante que eu trazia agarrado às pernas depois das etapas no Pico e em São Jorge. Praticamente toda a primeira parte desta terceira etapa foi em ascenção até à Caldeira do Faial. Antes de lá chegarmos passámos pelo Cabeço do Fogo, Cabeço Gordo e Cabeço Verde, levámos com vento, chuva e lama. Um festival, portanto. Devido ao mau tempo a organização optou por recorrer ao percurso alternativo, que de resto já estava preparado, pensando na segurança dos participantes na prova e em todas as pessoas que estavam envolvidas na realização da prova e que estariam no terreno. Foi uma boa opção e penso que terá sido unânime entre todos os envolvidos, atletas ou não. Assim, o troço das levadas e o trilho que circunda o perímetro da Caldeira foram cancelados, retirando cerca de dois quilómetros de extensão à etapa. Porém, no ponto mais alto do percurso, junto à Caldeira, alcançámos cerca de 900m de altitude. E de facto naquela zona o estado do tempo tinha má cara.

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No segundo abastecimento da etapa, localizado sensivelmente a meio desta, junto à Caldeira, comi uma canja que me soube pela vida, abasteci-me com o que é habitual encontrar nestes postos e segui viagem. A partir daqui seria praticamente sempre a descer em direcção à Horta, sendo que encontraria as únicas duas ou três pequenas subidas pouco antes de entrarmos na cidade. Nesta fase da etapa eu poderia ter aumentado o ritmo de corrida, mas optei por gerir o que restava de prova no modo de poupança. Disse-me mais tarde o Zé Maria que terminei a etapa com a bateria a 50% e que nestas coisas há que dar o máximo e chegar ao fim com os níveis de energia já na reserva, afinal tratava-se da última etapa. Dei-lhe a razão. De facto eu poderia ter dado mais de mim. Bom, lá cheguei à Horta e atravessei o pórtico de chegada com um tempo total das três etapas que me permitiu alcançar o 2º lugar no escalão M40. Mas a verdadeira vitória foi ter completado o Azores Triangle Adventure. Preparei-me para enfrentá-lo e venci-o!

Na classificação geral do Azores Triangle Adventure fiquei em 27º Geral com o tempo total de 16:40:59h, entre 47 atletas finisher.

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O prazer em ir ao pódio esteve sobretudo em partilhá-lo com o Zé Maria. Ele alcançou o 2º lugar M50 e o 3º no mesmo escalão na prova “Volcanoes SkyMarathon”. Em termos de classificação geral, o Zé deixou a sua marca no 21º lugar com o tempo total nas três etapas de 14:49:57h.

Foi uma excelente prestação da Equipa Prius Synergy Drive Trail Running!

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Os meus tempos por etapa foram os seguintes:

Da Vinha à Montanha, Pico – 28º Geral, 2º M40 com o tempo de 05:34:19h.
Trail Trail das Fajãs, São Jorge – 28º Geral, 2º M40, com o tempo: 04:49:00h.
Trail dos Vulcões, Faial – 31º Geral, 3º M40, com o tempo: 06:17:40h

Agora é tempo de preparar o próximo desafio, com o apoio da Toyota Portugal e da Terauto, concessionário da marca nas ilhas Terceira, Faial e Pico. Estes prémios nunca seriam obtidos sem o apoio que recebemos da Toyota e da Terauto, pelo que agradecemos também por aqui a confiança depositada em nós.

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Publicado por

Miguel Bettencourt

Marido, pai, informático e entusiasta da fotografia. Corro, não só pelo prazer que a corrida me proporciona, mas sobretudo porque posso correr.

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