O terceiro dia do Alive ’17 [a propósito do Benjamin]

No terceiro e último dia do NOS Alive 2017 (o único dia em que fui ao festival) houve três concertos que eu tinha intenção de assistir: Benjamin Booker, Fleet Foxes e Depeche Mode, sendo este último o principal motivo para ir ao Alive ’17. Pelo meio destes três houve muitos outros concertos, uns de grupos e músicos que eu já conhecia e outros que não me importava de conhecer. Ou seja, o que eu conseguisse apanhar, além dos três referidos, seria bem-vindo.

O problema dos festivais como o NOS Alive é o facto de estar a decorrer mais do que um concerto em simultâneo, o que muitas vezes torna difícil, ou impossível, a possibilidade de assistirmos a tudo o que gostamos, ou pretendemos assistir. Foi o que aconteceu comigo em relação ao concerto dos Fleet Foxes – não consegui apanhá-lo. Tive pena, mas não veio daí mal ao mundo.

Um dos outros dois concertos que queria ver foi o do Benjamin Booker e este vi-o do início ao fim. Gostei muito. O gajo tem garra (todos os que estiveram em palco com ele a têm) e é um rock que me agrada – eu nem estava para escrever nada sobre o que vivi no terceiro dia do festival, mas estar aqui a ouvir Benjamin Booker com os auscultadores nos ouvidos levou-me a partilhar a música Violent Shiver.

Ei-la, é só clicar no play.

Em relação ao concerto que verdadeiramente me levou ao Alive, e que me teria levado ainda que fosse o único grupo a passar lá naquele dia, Depeche Mode, digo apenas que ainda o tenho colado à pele. Ponto. Antes deles assisti a uma boa parte do concerto dos Imagine Dragons, mas continua a ser um grupo cuja música não me mexe com os humores.

As boas surpresas dentro dos tais concertos que conseguisse apanhar foram Plastic People e Marvel Lima. Já tinha ouvido qualquer coisa de ambos, mas vim de lá convencido de que prestarei mais atenção a eles a partir dos momentos em que os vi nos palcos em que actuaram. Outra actuação de que gostei foi a do Filho da Mãe, no coreto do recinto onde decorreu o festival.

E pronto, é isto.

MIUT – Ultra 85 km numa só palavra

The will to win means nothing without the will to prepare. – Juma Ikangaa

Tenho o hábito de escrever sobre as corridas de trail running em que tenho vindo a participar nos últimos quatro anos, manifestando e partilhando convosco as experiências que vivi em cada um dos desafios que tenho enfrentado neste domínio da corrida. Salvo uma ou duas excepções, escrevi sobre todas as provas em que participei.

A Ultra 85 km do MIUT – Madeira Island Ultra Trail foi o último e o mais difícil dos desafios até hoje, quer pela distância, quer pelas características do percurso, das quais os 4700 metros de desnível acumulado positivo marcam inequivocamente uma das dificuldades (a mais significativa, diria) que caracterizam esta ultra maratona em trail.

Porém, desta vez – logo desta, tratando-se do desafio que mais me marcou até hoje – opto por resumir a minha participação na Ultra 85 km do MIUT numa só palavra: Acreditei.

Acreditei no momento em que decidi enfrentar o desafio e acreditei no momento em que submeti a minha inscrição. Acreditei desde o primeiro dos treinos do planeamento que segui ao longo de seis meses. Acreditei quando estava na partida a ouvir a contagem decrescente para o início da prova, às 07h da manhã do dia 22 de Abril de 2017. Acreditei nos momentos bons, quando me senti solto e livre, e acreditei quando parei nos postos de controlo e de abastecimento, onde descansei, comi e, num deles, no do Pico do Areeiro, troquei de t-shirt e estiquei o corpo deitando-me num colchão durante cerca de cinco minutos. Acreditei nos momentos difíceis, tendo o pior deles ocorrido aos sessenta quilómetros e condicionado o resto da corrida devido a uma dor no joelho direito que não me largou até ao fim, e acreditei quando aos oitenta quilómetros tropecei e caí, magoando o joelho esquerdo. Acreditei quando avistei a meta, a poucos minutos de distância de onde eu estava, já a bater a uma da manhã do dia seguinte ao que a corrida teve início. E acreditei quando cruzei o pórtico de chegada, oitenta e cinco quilómetros e dezoito horas e catorze minutos depois do início da corrida.

Ou seja, acreditei, acreditei, acreditei. Acreditei sempre, desde o primeiro ao derradeiro minuto, que venceria a Ultra 85 kms do Madeira Island Ultra Trail. E venci-a com a Leonor ao meu lado e a Vanda e a Francisca (que já dormia no carrinho) a acompanharem-nos do lado de lá do corredor para a meta.

Se há alguma lembrança que trago do MIUT – e há, muitas – em relação ao futuro é a capacidade reforçada para acreditar, seja na corrida ou em qualquer outro aspecto da minha vida. Fui posto à prova como nunca antes tinha sido, por minha própria iniciativa e por acreditar que atingiria o meu objectivo. Isto, meus amigos, pode não ser o suficiente para mover montanhas, mas é-o certamente para transpô-las.

Estou grato a muitas pessoas que me acompanharam ao longo da preparação nos últimos seis meses. Estou particularmente grato, antes de qualquer outra pessoa, à Vanda. Estou grato aos meus parceiros de equipa e amigos: o Zé, o Telmo e o Valter, tendo este participado também nesta ultra e com quem treinei intensamente para este nosso objectivo comum. Estou grato ao João Mota, que me prescreveu os treinos, orientou-me e deu-me a força e a motivação que só um treinador sabe dar. Estou grato aos meus amigos, amigas e familiares que me apoiaram, apesar de, possivelmente, alguns não terem noção da dimensão do que ao eu ia, nem do que ao que fui. Todas estas pessoas acreditaram em mim e por isso lhes estou grato.

O MIUT ficou-me colado na pele e não hei-de ir desta para melhor sem regressar lá.

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Fotografias: Cano FotoSports

STUT 2017 – Não correu bem, nem correu mal.

Mentiria se dissesse que me correu bem a participação no STUT – Santo Thryrso Ultra Trilhos, no passado dia 12 de fevereiro. Não correu bem, ponto. Cheguei ao fim dos 53 km, alcançando o pórtico de chegada a faltar dois minutos para as nove horas em prova, e consegui concretizar o objectivo da minha ida ao STUT: fazer desta prova um treino para o MIUT – Madeira Island Ultra Trail. Ou seja, se o STUT não me correu bem, o facto é que os principais objectivos foram alcançados, o que faz com que também não me tenha corrido mal de todo. Porém, para correr bem faltou completar a distância em menos tempo, apenas isso. Não fui com o objectivo de fazer a coisa em tempo recorde (meu recorde, entenda-se), mas esperava conseguir terminar mais perto das oito horas de prova do que das nove.

Foram dois os motivos que me obrigaram a fazer algumas paragens, além das que são habituais nos postos de controlo e de abastecimento. Ambos bastante incómodos, devo dizer.

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Se bem me lembro, neste momento ia ainda com cerca de 8 km metidos nas pernas.

O primeiro motivo, divido por três momentos de introspecção no meio da natureza: um desarranjo intestinal. Forçou-me a três paragens, escondido nos arbustos, a aliviar-me. Foram três paragens breves, mas somadas terá dado qualquer coisa à volta de quinze minutos agachado a ouvir o canto dos pássaros e da chuva, e as vozes de alguns dos atletas que passavam não muito longe de mim – a escassos metros, na verdade, sem darem pela minha triste sina.

O segundo motivo, o mais penoso, teve origem no quilómetro trinta por percurso. Encontrava-me no posto de controlo e de abastecimento de Pilar, à cota de 550 metros, com um frio a que um açoriano não está habituado. A chuva caía e a canja de galinha prometia ser um regalo, quer para o corpo quer para a mente. Comer uma canja durante uma ultra é um luxo que nos conforta o estômago, brindado-nos com uma dose sempre bem-vinda de proteína e de hidratos. Agarrei na tigela cheia até à borda, esta escorregou-me da mão esquerda atingindo em cheio dois dedos desta mão: o anelar e o do meio. A canja não estava quente… estava a ferver! Resultado: dois dedos parcialmente escaldados. Nem dois minutos passados já eu tinha bolhas de queimadura em cada um deles.

A partir daquele momento fatídico a prova mudou para mim. Com dois dedos escaldados, tinha ainda pela frente vinte e três quilómetros e calculei que seria uma penitência percorrê-los. E foi uma penitência, acreditem. Ainda no posto de controlo e de abastecimento, onde roguei pragas à galinha que triste fim teve para delícia dos atletas – pragas que de nada me valeram pois a desgraçada estava mais cozida do que eu -, pensei em desistir. Mas a vontade em chegar ao fim foi mais forte. Cerrei os dentes e pensei nos riachos e nas ribeiras cujas águas geladas esperavam os meus dedos nelas mergulhados. Foi o que me valeu, aquelas águas. Assim, o resto da prova ficou marcado por pausas frequentes, cujos intervalos de tempo entre elas variaram entre cinco e dez minutos em corrida, ou caminhada quando foi caso disso. Ou seja, contabilizadas por alto todas as pausas que fiz para aliviar a dor nos dedos, acredito que perdi com elas qualquer coisa como trinta minutos. Ora, estes trinta somados aos quinze dispensados para as descargas intestinais impediram-me de terminar o STUT mais próximo das oito horas de prova do que das nove. Azar. Sim, azar é o que foi.

Mas lá cheguei ao fim, recebi a tão merecida medalha de finisher e um Jesuíta, doce típico da terra, saboroso digo-vos. E cumpri o objectivo: treinar para os 85 km que a Madeira tem à minha espera, no próximo dia 22 de Abril.

De resto, o STUT em si não me cativou. É uma prova dura com trilhos técnicos interessantes, subidas que nos fazem suspirar e descidas que nos recomendam ir com cuidado. O mau estado do tempo apimentou-a, em certa medida, e noutra nem por isso. Mas é uma prova que não tem nada que me faça lá voltar. O percurso é maioritariamente em matas muito próximas de aglomerados habitacionais, aos quais não só fazemos razias como os atravessamos demasiadas vezes. Não é um percurso que nos faça sentir que estamos tão só no meio da natureza e nada mais. Há sempre, ao longo de todo o caminho, sinais sonoros e visuais de que a civilização está ao virar da esquina. Em termos paisagísticos também não brilha. Se me perguntarem se recomendo esta prova, direi Sim, mas só ao nível da organização.

O que me deixou francamente indignado foi o lixo que encontrei ao longo do percurso, na sua maioria embalagens de gel energético largado descaradamente por atletas que iam à minha frente, apesar de ter visto umas quantas com sinais de que já lá estavam há mais tempo. Há pessoas que não deviam ir para os trilhos, mas vão, lamentavelmente – quer lá quer cá, desculpem-me a franqueza. São eles que estão a estragar algo que significa antes de tudo o resto a comunhão entre a natureza e quem a aprecia através de uma actividade de lazer e/ou desportiva, seja ela qual for. Valeu-me saber que a organização do STUT não se revê nesta triste postura e os seus membros empenharam-se em limpar os trilhos dias depois da prova.

E é isto basicamente. Mais haveria a relatar, mas há coisas que ficam para nós próprios, gravadas na memória.

Venha o MIUT!

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Madeira que vale tanto como ouro.

O vento não manda em mim

Gostaria de um dia escrever um conto para crianças. Esta ideia surgiu há escassos dois dias, depois de a Francisca afirmar convictamente que o vento não manda nela. Tem toda a razão a minha filha mais nova, com três anos de idade, a caminho dos quatro. O vento não manda nela, de facto.

Voltando ao conto, decidi que, pelo menos, hei-de tentar. Não sei como o fazer, nem tão pouco por onde começar. Imagino que antes de tudo terei de organizar as ideias: a história, o tempo e as personagens. Não tenho dúvidas de que os resultados obtidos de uma breve pesquisa na Internet levar-me-ão a um não-sei-quanto-número de páginas web onde encontrarei dicas e conselhos acerca de como poderei e deverei escrever um conto. Com alguma mestria binária a própria Internet escreveria-o no meu lugar, bastando para isso eu indicar os ingredientes, e quando clicasse em Fim transformaria o ficheiro de texto num PDF – esta última possibilidade está perfeitamente ao meu alcance; já a primeira, mesmo que fosse possível (será?…) eu não a quereria para mim.

Escrever, considerando que o que escrevo resume-se a um ou outro texto no blogue, livre de qualquer pretensão literária, dá-me em certa medida gozo. Consigo tirar daí algum divertimento. Já escrever um conto representa trabalho, concentração e, acima de tudo, criatividade e imaginação. Não sei se algum dia conseguirei fazê-lo. Porém, estou francamente inclinado a tentar. Recorrendo ao chavão sobejamente conhecido, a pergunta que coloco agora em relação a este objectivo não é porquê?, mas sim porque não?.

Vou tentar. Isso por si só já é alguma coisa. Até porque a ver pela minha experiência de vida recente, tentar por tentar, sem compromissos, pode abrir caminho para algo que nunca julgámos ser possível alcançarmos. Quando corri pela primeira vez a distância de 5 km nunca imaginei que correria a distância da maratona, e mais além. Se há lição que aprendi nos últimos anos é de que afastar para um canto um objectivo sem pelo menos tentar perceber se há possibilidades de alcançá-lo, é perder a primeira oportunidade de vir a realizá-lo.

Como me ensinou a Francisca, o vento não manda em mim.

MIUT 2017 – Começou o desafio!

Iniciei esta semana a execução do plano de treinos para o MIUT – Madeira Island Ultra Trail, onde defrontarei o desafio da prova Ultra 85 km que conta com uma bucha de 4400m de desnível positivo acumulado, desde a zona de São Vicente até ao Machico, passando pelos pontos mais altos da ilha, os míticos picos Ruivo e Areeiro.

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Imagem: facebook.com/madeiraultratrail

O MIUT é, até à data, o grande desafio de trail running da minha ainda curta experiência nesta modalidade da corrida que conta com participações no Azores Trail Run (2014, 2015 e 2016), Azores Columbus Trail (2016) e Azores Triangle Adventure (2015 e 2016). Nestas provas aprendi e evoluí, o que me permite aspirar a um desafio mais duro.

Tendo consciência das características e do grau de dureza do MIUT, ainda antes de decidir abraçar este desafio – após ter equacionado seriamente enfrentá-lo – sabia que teria de preparar-me muito bem para ele. Por este motivo, também decidi que o melhor seria executar um planeamento de treinos e ter o acompanhamento profissional ao longo dos meses de treinos que tenho pela frente até ao dia 22 de Abril de 2017, dia da prova. Para o efeito contactei o João Mota, ultra trail runner e coacher de trail running e endurance, o qual se disponibilizou de imediato a ajudar-me na preparação para o MIUT.

Como referi no início, esta semana que está a terminar marcou o arranque do planeamento. Após a avaliação aos questionários a que respondi a questões tanto de natureza desportiva, como de carácter nutritivo (hábitos alimentares e abastecimentos em ambiente de endurance), além dos exames médicos necessários que farei em breve (prova de esforço, etc), o João Mota definiu o conteúdo das próximas semanas de treinos, aos quais darei feedback dos resultados para que ele possa ajustar os treinos em função da minha resposta na estrada e nos trilhos. Ainda hoje, por exemplo, farei um treino de 40′ em ritmo moderado com o objectivo de calcular a minha taxa de sudorese, o que significa quantificar a transpiração e daí calcular a quantidade de água que deverei ingerir a cada hora de treino. Ou seja, agora será a sério.

Das conversas que tenho tido com o João Mota, sinto-me como um tipo que toca um ou dois instrumentos musicais, mas nunca teve formação musical. Certo dia, esse tipo decide aprender música com um maestro e descobre todo um novo mundo num mundo que ele pensava conhecer relativamente bem. É assim que me sinto neste momento em relação à corrida em geral e ao trail running em particular.

Estou entusiasmado. Sinto-me energético. E tenho muito trabalho até ao MIUT, mas estou certo que valerá cada pingo de suor. O meu objectivo não é apenas vencer o desafio a que me propus, deixando os 85 km do MIUT – Ultra para trás, mas é sobretudo cruzar a meta de mãos dadas com a Vanda e as nossas filhas, a Leonor e a Francisca. Para alcançar isso, meus caros, vou trabalhar duro, custe o que custar.

“Trail da Vinha à Montanha” em vídeo

Eu sou um nabo em vídeo. E sou-o devido ao facto de nunca ter dedicado tempo a este domínio da imagem. Isto para dizer que fiz umas filmagens na primeira etapa do Azores Triangle Adventure, recorrendo a uma GoPro que me foi emprestada pelo meu irmão, e dos vários clips gravados poucos se aproveitam. Vai daí, juntei num só vídeo os clips que se safaram e adicionei-lhe a música “Take Me Out” de Franz Ferdinand. O resultado não é grande coisa, ainda assim aqui fica. Como referi no post anterior, esta etapa teve início na Vila da Madalena e terminou no topo da Montanha do Pico.

Três ilhas, três dias, três etapas (2016)

Um ano após a primeira edição do Azores Trail Run – Triangle Adventure (ATA) regressei a esta prova nos dias 7, 8 e 9 de Outubro com o objectivo de completar as três etapas que a compõem. Se no ano passado corri apenas uma etapa da prova, na ilha do Faial, este ano elevei a fasquia e atirei-me às três etapas. À semelhança da edição de 2015, este ano a prova decorreu nas ilhas Pico, São Jorge e Faial, formando assim um desafio de cerca de 100 km no triângulo açoriano.

Nesta edição de 2016 do ATA a Equipa Prius Synergy Drive Trail Running, a que tenho o prazer de pertencer, esteve representada apenas por mim e pelo Zé Maria Oliveira – o Zé juntou-se à equipa em Fevereiro deste ano, sendo que a primeira prova em que participou com a nossa camisa foi  o Columbus Trail em Santa Maria. Em Maio correu também connosco no Azores Trail Run 2016 na ilha do Faial.

Não puderam estar presentes no ATA 2016 o Telmo Soares, devido a motivos familiares, e o Valter Braga. No caso do Valter tratou-se de uma ausência que não estava de todo prevista e deveu-se a doença nas vésperas da realização da prova que o impediu de estar apto para alcançar este objectivo. Foi um murro no estômago após muitas semanas de preparação para o desafio, principalmente para ele, mas também para mim. Treinámos juntos para o ATA durante praticamente dois meses e sou testemunha da dedicação e do empenho que ele investiu na preparação para o Azores Trail Run – Triangle Adventure. Por ele corri todos os quilómetros nas três etapas. A ele dedico a minha satisfação pessoal por ter alcançado o nosso objectivo comum a que nos propusemos.

6 de Outubro – Secretariado, briefing e pasta party

Viajei da Terceira para o Faial na manhã de 5ª feira, 6 de Outubro. Quando cheguei à Horta já lá estava o Zé Maria à minha espera. A manhã foi passada num passeio calmo, aproveitando o bom tempo. Andámos pelo Monte da Guia e de lá descemos para a Praia de Porto Pim, onde nos sentámos numa esplanada a almoçar, continuando a pôr a conversa em dia. A parte da tarde foi passada no hotel a descansar. Teríamos três dias intensos a correr e a viajar de barco entre as ilhas do triângulo, de forma que era importante descansarmos na tarde da véspera da primeira etapa. Ao fim da tarde caminhámos calmamente em direcção à Sociedade Amor da Pátria, local onde estava instalado o secretariado e decorreria o briefing. Lá chegados, e ainda sem alcançarmos o último degrau da escadaria de acesso ao interior do edifício, encontrámos logo caras conhecidas de outras provas do Azores Trail Run. No secretariado aguardava-me o dorsal nº. 9 e muita conversa com amigos e conhecidos.

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Como é habitual, o director da prova, Mário Leal (entre o Zé Maria e eu na fotografia acima), apresentou o Azores Trail Run – Triangle Adventure 2016, fazendo algumas recomendações e adiantando outras tantas informações de carácter logístico, meteorológico, entre outros, e esclareceu as dúvidas levantadas pelos participantes. Terminado o briefing fomos para a pasta party, na qual a qualidade do jantar que nos foi servido esteve mais uma vez ao nível a que a organização do Azores Trail Run já nos habituou. Chegara a hora de dormir. O dia seguinte começaria bem cedo.

7 de Outubro – Primeira etapa: “Trail da Vinha à Montanha” – Pico

O dia começou com o pequeno-almoço às 06h. A primeira viagem de barco, para a ilha do Pico, teve início às 07h30m e, chegados à Madalena, iniciámos a primeira etapa às 08h45m na cota zero, ou seja ao nível do mar. O destino foi o cume de Portugal, na Montanha do Pico (2351m de altitude). A primeira fase do percurso foi percorrida no Lajido da Criação Velha, onde se situa a Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, classificada pela UNESCO como Património da Humanidade em 2004. Deixando a Criação Velha para trás e à medida que perdíamos de vista as suas vinhas, iniciámos a subida gradual em direcção à Casa da Montanha através de caminhos agrícolas em terra, trilhos técnicos e pastagens. Pelo meio, reabastecemos no primeiro ponto para o efeito.

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Com cerca de 25 km de prova alcançámos a Casa da Montanha, a 1200m de altitude, onde se encontrava o segundo abastecimento. A primeira coisa que fiz, ainda antes de devorar uma tigela de canja quente, entre outros alimentos necessários para manter os níveis de açúcar e de sal no organismo e injectar calorias neste, foi vestir as calças de corrida, a camisola térmica e o pára-vento. A subida da montanha seria debaixo de alguma chuva acompanhada de um pouco de vento e de nevoeiro e havia a necessidade de ir preparado para as condições que nos esperavam. Depois de vestido e alimentado, lançei-me montanha acima. Subir os degraus que nos transportam do interior da casa para o início do trilho que sobe a Montanha do Pico após 25km de corrida é uma sensação estupenda – como disse o Zé, é à boss.

Não muito tempo após o início da subida percebi que a etapa mudara. Explico: para quem está bem preparado, correr os 25km de percurso que separam a Madalena da Casa da Montanha é uma brincadeira e foi isso mesmo que senti, acontece que subir a Montanha do Pico depois da tal brincadeira muda toda a prova. Ainda assim, mantém-se uma fase da etapa perfeitamente alcançável desde que estejamos preparados. Assim, subi e subi até deixar as nuvens abaixo de mim e encontrei um céu azul iluminado pelo sol. Nesta fase já os primeiros atletas a alcançarem a meta desciam a montanha e ofereciam-me, e a todos os que ainda a trepavam, palavras de incentivo e apoio – a beleza do trail running está também aqui, no apoio que damos uns aos outros, profissionais e amadores, nos momentos de maior desgaste e/ou de necessidade física ou psicológica. Lá alcancei a meta, localizada no ponto mais alto de Portugal. Ao meu lado estava o Miguel Judas (fotografia abaixo).

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A primeira da três etapas estava concluída e a mistura de sensações fez com que eu demorasse alguns minutos a digerir as últimas horas passadas em prova. Era tempo de relaxar, viver o momento e deixar-me levar pela imensidão que o topo da Montanha do Pico nos oferece. É certo que teria ainda a descida e esta não seria feita em total relaxe, dado que havia a necessidade de chegar lá baixo em segurança e livre de acidentes que pudessem comprometer as etapas seguintes. À minha espera estava uma merecida massagem de recuperação para o dia seguinte.

8 de Outubro – Segunda etapa: “Trail das Fajãs” – São Jorge

Depois de um bom jantar e uma noite bem dormida, o segundo dia também começou cedo. A viagem de barco para São Jorge estava marcada para as 08h40 e o horário foi respeitado. À nossa espera no porto das Velas estava o autocarro que nos transportou para o lugar de São Tomé, freguesia de Santo Antão. Após o segundo pequeno-almoço do dia, proporcionado pela organização da prova, a segunda etapa teve início às 11h00.

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Acima, na entrada no barco eu e o Zé conversávamos, possivelmente a rever a estratégia a adoptar na etapa. 🙂

Na fotografia abaixo, aguardávamos serenamente o momento da partida.

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Ao sinal da buzina percorremos poucos metros em asfalto e entrámos no caminho em terra que nos levou à descida para a Fajã de São João. Como quem desce também sobe, a saída desta primeira fajã do dia foi feita metendo nas pernas a primeira subida da etapa, com cerca de 500 metros de desnível positivo. E como quem sobe também desce, lá descemos para a Fajã dos Vimes, sempre em trilho, lá está. Um pouco antes de chegarmos à Fajã dos Vimes, onde é cultivado e saboreado o famoso café do senhor Nunes, tivemos o primeiro abastecimento do “Trail das Fajãs”. Mais adiante, sentadas no muro lateral da igreja, estavam cinco senhoras a puxar por nós, incentivando-nos com palmas. Elas sabiam que a subida para sair da Fajã dos Vimes não ficaria para trás sem dar luta. E era verdade… Até à cota de 700m de altitude, a escadaria de nos conduziu da fajã até à serra é, a determinado momento, uma força oculta que nos faz questionar porque carga d’água estamos ali. Sempre a subir, degrau após degrau, aquilo parece não ter fim. Porém, para a cima é que é e as duas canas que eu tinha agarrado antes do abastecimento (já a pensar nesta subida) foram as minhas pernas de apoio às pernas propriamente ditas. Chegado ao último dos degraus, entrei no trilho que me levou ao pasto onde avistei lá em cima o segundo abastecimento do dia.

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A segunda parte da etapa foi praticamente a acumular desnível negativo nas pernas, ou seja, a descer. Ao avistar a Caldeira da Fajã de Santo Cristo, olhei para o relógio e percebi que poderia terminar a etapa abaixo das cinco horas. Para isso teria de acelerar e como sentia-me solto e forte foi o que fiz. Entrei na caldeira famosa por ser um santuário do surf num ritmo abaixo dos 5min/km e assim continuei até sair dela e lançar-me no trilho com destino à meta, na Fajã dos Cubres.

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Terminei a segunda etapa num ritmo abaixo do que era suposto. Só depois lembrei-me que ainda teria a terceira etapa do ATA, a mais longa por sinal. Após cruzar o pórtico na chegada comi uma sopa de peixe e massa sovada. Enquanto esperava pela minha vez na fila para a massagem, o Zé Maria tratou de ir buscar para nós o isotónico de cevada.

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9 de Outubro – Terceira e última etapa: “Trail dos Vulcões” – Faial

Tivemos menos tempo de descanso entre a segunda e terceira etapas, ainda assim deu para recuperarmos razoavelmente bem para a derradeira etapa da prova. O “Trail dos Vulcões” acolheu também a prova “Volcanoes SkyMarathon”, na qual participou não só quem correu as três etapas do Azores Triangle Adventure, mas também quem optou por correr apenas esta prova do circuito nacional de sky running.

Após a viagem de barco, um pouco agreste, desde as Velas de São Jorge até ao Faial e do transporte em autocarro da Horta até ao Vulcão dos Capelinhos, o início da terceira e última etapa estava marcado as 1o:30h, mas sofreu um atraso de uma hora. O segundo pequeno-almoço da manhã decorreu no interior do centro de interpretação do vulcão e também de lá foi dado o sinal de partida. O local de início foi alterado devido ao mau estado do tempo que se abatia sobre nós. Para ficarem com uma ideia, iniciámos a etapa debaixo de chuva forte e trovoada. Foi surreal.

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O percurso começou logo ali em subida, num terreno que nos puxa para trás, não se tratasse de areia, vulcânica no caso – além do elefante que eu trazia agarrado às pernas depois das etapas no Pico e em São Jorge. Praticamente toda a primeira parte desta terceira etapa foi em ascenção até à Caldeira do Faial. Antes de lá chegarmos passámos pelo Cabeço do Fogo, Cabeço Gordo e Cabeço Verde, levámos com vento, chuva e lama. Um festival, portanto. Devido ao mau tempo a organização optou por recorrer ao percurso alternativo, que de resto já estava preparado, pensando na segurança dos participantes na prova e em todas as pessoas que estavam envolvidas na realização da prova e que estariam no terreno. Foi uma boa opção e penso que terá sido unânime entre todos os envolvidos, atletas ou não. Assim, o troço das levadas e o trilho que circunda o perímetro da Caldeira foram cancelados, retirando cerca de dois quilómetros de extensão à etapa. Porém, no ponto mais alto do percurso, junto à Caldeira, alcançámos cerca de 900m de altitude. E de facto naquela zona o estado do tempo tinha má cara.

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No segundo abastecimento da etapa, localizado sensivelmente a meio desta, junto à Caldeira, comi uma canja que me soube pela vida, abasteci-me com o que é habitual encontrar nestes postos e segui viagem. A partir daqui seria praticamente sempre a descer em direcção à Horta, sendo que encontraria as únicas duas ou três pequenas subidas pouco antes de entrarmos na cidade. Nesta fase da etapa eu poderia ter aumentado o ritmo de corrida, mas optei por gerir o que restava de prova no modo de poupança. Disse-me mais tarde o Zé Maria que terminei a etapa com a bateria a 50% e que nestas coisas há que dar o máximo e chegar ao fim com os níveis de energia já na reserva, afinal tratava-se da última etapa. Dei-lhe a razão. De facto eu poderia ter dado mais de mim. Bom, lá cheguei à Horta e atravessei o pórtico de chegada com um tempo total das três etapas que me permitiu alcançar o 2º lugar no escalão M40. Mas a verdadeira vitória foi ter completado o Azores Triangle Adventure. Preparei-me para enfrentá-lo e venci-o!

Na classificação geral do Azores Triangle Adventure fiquei em 27º Geral com o tempo total de 16:40:59h, entre 47 atletas finisher.

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O prazer em ir ao pódio esteve sobretudo em partilhá-lo com o Zé Maria. Ele alcançou o 2º lugar M50 e o 3º no mesmo escalão na prova “Volcanoes SkyMarathon”. Em termos de classificação geral, o Zé deixou a sua marca no 21º lugar com o tempo total nas três etapas de 14:49:57h.

Foi uma excelente prestação da Equipa Prius Synergy Drive Trail Running!

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Os meus tempos por etapa foram os seguintes:

Da Vinha à Montanha, Pico – 28º Geral, 2º M40 com o tempo de 05:34:19h.
Trail Trail das Fajãs, São Jorge – 28º Geral, 2º M40, com o tempo: 04:49:00h.
Trail dos Vulcões, Faial – 31º Geral, 3º M40, com o tempo: 06:17:40h

Agora é tempo de preparar o próximo desafio, com o apoio da Toyota Portugal e da Terauto, concessionário da marca nas ilhas Terceira, Faial e Pico. Estes prémios nunca seriam obtidos sem o apoio que recebemos da Toyota e da Terauto, pelo que agradecemos também por aqui a confiança depositada em nós.